sexta-feira, 23 de novembro de 2012

“Abandonou tudo para ir atrás de uma ilusão - respondeu ele. - Fez de mim um herói romanesco, esperando condescendência ilimitada da minha devoção e cavalheirismo. Não consigo imaginá-la como uma criatura racional, já que tão obstinadamente se agarrou a uma ideia fantasiosa do meu carácter  agindo com as falsas imagens em que acreditava. Mas penso que começa finalmente a conhecer-me. Já não vislumbro os sorrisos idiotas e os trejeitos que, a princípio, tanto me irritavam; nem a sua insensata incapacidade para discernir sinceridade nas minhas palavras, quando lhe dava a minha opinião sobre ela própria e a sua paixão doentia. Ela precisou de um rasgo de perspicácia para descobrir que eu não a amava. A dada altura, cheguei a acreditar que nada a faria entender isso; mesmo assim, aprendeu mal a lição, pois esta manhã informou-me, num rasgo de inteligência, que, finalmente, eu tinha conseguido que ela me odiasse! Um verdadeiro trabalho de Hércules, podes crer! Se consegui isso, tenho de lhe agradecer. Posso confiar em ti, Isabella? Tens certeza de que me odeias? Se eu te deixasse sozinha por meio dia, não voltarias para mim com suspiros e lamentos? Bem sei que ela preferiria que eu fosse afectuoso na sua frente; fere seu orgulho ver a verdade assim exposta. Mas eu não me importo que se saiba que a paixão não é recíproca, e nunca lhe ocultei a verdade. Ela não pode acusar-me de simular uma falsa gentileza, pois a primeira coisa que me viu fazer, quando saí da Granja , foi enforcar a sua cadelinha; e, quando me suplicou que não fizesse aquilo, as primeiras palavras que proferi foram que desejava poder enforcar todos os membro da sua família, exceto um : talvez tenha pensado que era ela a excepção.  Todavia, nenhuma brutalidade a impressionou. Suponho que possui uma admiração inata pela brutalidade, desde que ela própria se sinta em segurança. Não é o cúmulo do absurdo e da estupidez que esta criatura servil e mesquinha pudesse pensar que eu a amava? Se ela quiser partir, é livre para fazê-lo. O incómodo da sua presença é bem maior que o prazer de poder atormentá-la!”

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